Depressão é pop

Nada mais "in" hoje em dia do que estar deprimido. De uma maneira digamos assim, quase que dialética, estar acometido dessa epidemia contemporânea que outrora levaria almas desesperadas aos confins da inadequação, isolamento e solidão, hoje permite pelo menos a inclusão do pobre infeliz desenganado num amplo círculo social.
Outro dia estava numa festa e alguém perguntou em bom paraense, referindo-se à uma pessoa cujo nome era Rodrigo:

- O Rô, tu viu?

De repente uma mais afoita e ansiosa por uma conversa que sentava ao lado pulou de supetão e disparou:

- O que? Rivotril? Também tomo. Uma maravilha menina!

- Não, não tava perguntando do Ro...

- Que Rivotril que nada! -Outra voz já mais bêbada e cheia de propriedade irrompeu na conversa.

- Rivotril é uma merda. Bacana é a fluoxetina, essa sim é campeã.

- Nada disso rapá! Fluoxetina é pra depressãozinha; coisa do passado.

Retrucou outro em tom intelectual e querendo mostrar que também entendia do assunto completou:

- A tendência agora são os “dual-action” e tricíclicos...

Diante dos meus olhos, uma acalorada discussão farmacológica com nuances de existencialismo e dinâmica futebolística se agitava. Tomado por uma estranha angústia, eu comecei a me perguntar de onde haviam saído todos aqueles deprimidos serelepes, eloqüentes e bem informados. O que havia acontecido com os solitários, poetas, bêbados de balcão solenemente deprimidos em silêncio ou suicidas heroicamente decididos em seus apartamentos? Custei um pouco a acreditar, mas era tragicamente claro: a praga pop havia conseguido solapar mais um ícone da minha geração. Sorrateiramente, tinha tomado de assalto esse derradeiro refúgio dos inseguros, ansiosos e anônimos; talvez nosso último incólume lastro de identidade; e eu testemunhava tudo atônito. De forma cruelmente irônica, pela primeira vez haviam conseguido acabar com a minha depressão, e eu ficara profundamente deprimido por isso. O chão se abriu debaixo dos meus pés, nunca havia me sentido tão perdido. Era o fim. Fui pra casa e continuo profundamente abatido. Já a dita que queria saber do tal Rodrigo, bem, essa acabou meio deslocada, sem graça e se retirou com a sensação de que estava de fora de algo muito importante. Provavelmente a essa hora, já deve estar também na farmácia mais próxima, ansiosa, comprando alguma das últimas tendências no mercado para não ficar de fora na próxima.

Comentários

Amanda disse…
Melhor mesmo é rivotril + fluoxetina hahahahahhahaha
Karine Pedrosa disse…
Fazer o quê se é bom mesmo!!?!!

Agora que vc está se livrando da sua deprê, podes me passar as receitas antigas?? Os tricíclicos (é isso?) também tão valendo.

Não pra curar...

rsrsrs
Pedro Vianna disse…
Ótimo. Pra que ficar buscando temas elevados e suprahumanos, se a realidade já é suficientemente intrigante e surreal. Adorei o texto. Continue nessa linha de crônicas...
Showxota Pink disse…
puta merda ein!Um blog interessante!

ps: pensei que só eu falava "serelepe". ¬¬
,Marcos disse…
kkkkkkkk

muito bom teu blog!!! Nem tenho o costume de ficar navegando e tal, mas tua escrita me chamou atenção

Parabéns

Marcos...
Luiz Eduardo disse…
Bacana o Texto.

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