Chuta que é macumba parte I

Quando chegam juntos ao escaninho, a fatura estourada do cartão de crédito, a fatura atrasada do crediário e uma carta do serviço de proteção ao crédito, o popular S.P.C, avisando de forma tão carinhosa que você foi incluído no cadastro, que você por um instante chega até a pensar que é alguma coisa boa, e o salário do mês já acabou de acabar; só pode haver uma explicação: existem forças obscuras agindo ardilosamente atrás da cortina da vida, é feitiço, trabalho, obra do maligno. Só pode ser!
Decidido a acabar de vez com essa onda de urucubaca, fui ter com um macumbeiro amigo meu que nas horas vagas faz bico de reparador de carros aqui perto. Ao me aproximar do indivíduo, notei pelo franzir involuntário daquela testa breada e marcada pelas vicissitudes da labuta, que ao bater com os olhos em mim, mesmo ainda à distância, o pai-de-santo flanelinha logo pressentiu o campo energético carregado que me circundava e de certo já sabia do que se tratava, pois era homem de intensa força psíquica e grande poder sensitivo. Quando finalmente cheguei perto, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa ele me interpelou:
-É dinheiro! – exclamou o vidente com a flanela em punho.
Caramba, eu pensei entusiasmado, não é que o cara é bom mesmo rapá.
-Como tu sabes? – perguntei.
-Porque acabei de ver. É dinheiro o que acabou de cair do teu bolso, não é?
Puta que pariu! E não é que era mesmo. Só deu tempo de eu mirar de longe meus últimos cinco contos guardados com todo esmero sendo levados pelo vento rodopiando no asfalto e parando debaixo de um sapato e depois sendo disfarçadamente transferido para dentro do bolso de um colegial que passava na direção oposta. Tentei ainda gritar, mas já era tarde. O adolescente inebriado de hormônios, com pústulas na face e sovaco encharcado pela sudorese característica da espécie, correu e entrou num ônibus que foi arrancando tão devagar que só podia ser provocação.
Não havia mais dúvidas, estava claro como o sol de duas da tarde acima de mim a me açoitar na fronte fazendo latejar um protuberante vaso sanguíneo; aquilo era um evidente ato de retaliação por parte das forças soturnas por eu ter ido me apadrinhar ao místico reparador de carros. Um aviso de que o inimigo estava atento e à espreita, dispunha de grande aparato de inteligência e estava sempre um passo a frente. De imediato uma pontada percorreu-me a testa passando por toda parte superior da têmpora esquerda e instalando-se na base do crânio. Confesso que por alguns instantes fui acometido de certo pessimismo. Contudo não sucumbi, reuni o pouco de saliva que me restava na boca, engoli um tylenol emergencial que estava no bolso, evoquei São Jorge, clamei pelo espírito-santo, fiz o sinal da cruz três vezes e permaneci resoluto em campanha para derrotar o mal perpetuador da pindaíba crônica.

Comentários

MY son disse…
parece que eu vi toda essa cena!
ahahhahahahaha
Anônimo disse…
Seu texto é tão rico em detalhes q prendem e mostra toda a cena real ou virtual...
Pedro Vianna disse…
Muito bom meu amigo. Bom humor e eloquência associados de forma fluida, sem floreios pseudointelectualizantes. Quero ler o final dessa desgraça...
Fabinho disse…
Se é verídico eu não sei, mas o texto tá magnifíco. Desses de saborear. Parabéns.
:)
lora disse…
Adorei!
parece que eu to te ouvindo contando essa história, perfeito!
um beijo
só JESUS disse…
realmente o seu texto está muito bem escrito......acho que vc tá querendo ganhar o nobel da literatura.....rsrsrsrs
Mas falando sério agora, tenho algo para lhe dizer::
"Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, que beberemos, ou com o que nos vestiremos?(...)De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; mas buscai primeiro ao reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal."Mateus 6.31-34
guarde estas palavras...
tchau

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