quarta-feira, março 28, 2007

Fragmentos Poéticos II

Desejei-te em intelecto, sabor e chistes

Mesclei-te em sonhos de cor tenaz

Covardia de coração sentido

Olhar de querendo ficar

Delirei teu nome em febre de manhã bem cedo

Esperando que assim te fizesse escutar

terça-feira, março 27, 2007

Contos Parte I

A tosse havia voltado. Mas desta vez, não com a mesma força como nas outras noites. Os olhos meio pregados devido à coriza noturna se esforçavam entreabertos tentando distinguir o distorcido vermelho do relógio-alarme que marcava alguma hora da madrugada. O peito ardia sem parar. Isso certamente se dava muito em razão da bronquite crônica que o acompanhava desde a infância, mas sem dúvida, mais ainda pelo pesar dos infortúnios que se acumularam durante os anos. Um gosto amargo de bile vinha à sua boca e ele o empurrava novamente garganta abaixo com a saliva ácida. Já há horas estava naquela situação desconfortável, virando de um lado para o outro, com se em algum momento fosse conseguir dormir profundamente e esquecer daquilo tudo por mais algum tempo. Porém uma espécie de febre lhe ardia, e mesmo que não estivesse dormindo de fato, permanecia num estado sonâmbulo, delirante, sem ter controle sobre os pensamentos que lhe afloravam a mente. E os sonhos? Seriam eles de fato sonhos? Já havia um mês que todas as noites ele sonhava com a mesma coisa. De manhã nunca lembrava por completo, mas sempre alguma parte diferente, porém sabia que se tratava do mesmo sonho. E aquele crucifixo, sempre o mesmo crucifixo, via-o sempre. Na verdade era a única coisa que conseguia lembrar em todos eles. Desta vez perto da cristaleira de mogno preto. Essa ele lembrava muito bem de onde vinha. Era antiga e ficava no casarão de sua avó, onde passara a infância. Por vezes tinha a impressão que naquela época já havia tido esse sonho. Mas o crucifixo, nunca o tinha visto antes. De onde vinha? Às vezes sobre o peito, lhe apertando e lhe tirando o ar. E de súbito uma presença lhe vigiava pelo quarto. Eram assim todas as noites. Seria isso loucura? Por mais que tentasse fazer sentido do turbilhão de imagens que o mantinham naquela letargia noturna, nunca o conseguia. E a fraqueza tomava conta de si. Acordava todos os dias como se não houvesse dormido um só segundo a noite inteira. Apesar de não se dar conta do passar das horas, sabia que elas passavam, apenas porque entre uma crise de tosse e a outra vinha rapidamente à realidade e fitava o relógio digital de cabeceira. E tornava a virar-se para o outro lado e a cobrir o rosto com parte do lençol. E de novo a tosse, dessa vez já mais forte, começou a lhe arranhar a garganta. Aos poucos se sentou na cama, tomou um pouco de água de um copo que já estava ali na mesa de cabeceira há algumas noites, e então voltou a encolher-se e a cobrir o rosto enroscado no fino lençol. Por alguns instantes sentia como se pudesse ficar naquela posição para o resto da vida, como se aqueles devaneios febris de alguma forma o acalentassem. Subitamente discutia consigo mesmo dentro de sua cabeça, noutro momento despencava num abismo de figuras e vozes desconectas. De repente, como se tivesse sido ejetado da cama, deu um salto e pôs-se em pé. Ficou ali com os olhos fixados num quadro mal pintado que havia na parede, não prestava atenção nele de fato, mas por um instante parou para pensar em tudo que poderia acontecer se saísse daquele quarto. Certa covardia apoderou-se dele, então voltou e sentou na cama, alguns calafrios lhe espalharam brotoejas pelo corpo, e sem se dar conta, já estava novamente entre os lençóis, morno, sentindo que nunca deveria ter saído dali em primeiro lugar, e adormeceu. De repente tomou um susto, deu um salto e ficou em pé, viu que o relógio já marcava três horas da tarde. Sentou-se mais uma vez na beira da cama e ficou ali olhando para o chão segurando a cabeça com as mãos e os cotovelos sobre os joelhos. Pensava para que continuar e levantar se àquela altura já havia nada que poderia ser feito. E quando voltava a sucumbir aos lençóis, como um vício que o dominava, o telefone tocou...

terça-feira, março 13, 2007

Underground vs. Mainstream

A lendária guerra entre “mainstream” e “underground” tem suas raízes fincadas na cultura pop do mundo ocidental moderno, e tem encontrado solo particularmente fértil na cultura musical contemporânea. Os dois lados antagonistas têm travado uma batalha épica, onde qualquer coisa que um “undergrounder” (termo usado para descrever um suposto adepto de tal vertente) considere comercial, corporativo ou massificado, se torna “mainstream” e onde tudo que um “mainstreamer” (alcunha que designa o sujeito do lado oposto) acredite ser esquisito, extremo ou pesado se torna “underground”.
Tomando o termo “underground” como ponto de partida, percebe-se que o mesmo vem envolto em uma série de suposições, as quais se aplicam o contrário ao lado antagonista.
A primeira, é que os artistas que habitam e sobrevivem nessa realidade conspicuamente soturna, são a suprema personificação da essência de seus estilos musicais e conseqüentemente o que eles deveriam ser. A segunda é que eles têm amor pela cultura. O que nos leva diretamente a terceira e mais ouvida suposição: a de que “eles não se venderam”.
Obviamente, segue o fato dos seus respectivos seletos fãs se considerarem portadores das mesmas qualidades, desqualificando a enorme quantidade de fãs e seguidores da vertente opositora (mainstream) alegando que: “eles não entendem nada”.
O que é crucial para este argumento, é a asserção de que artistas que alcançam o sucesso em larga escala e começam a ganhar dinheiro, de alguma forma, não estão sendo verdadeiros.
Por outro lado os “mainstreamers” se defendem com uma única, porém contundente alegação de que, underground é um termo que os artistas que não conseguiram obter grande sucesso (leia-se fracassados) usam para descrever a si mesmos.
Posto isso, surgem de imediato algumas questões, sendo a primeira: o que é ser de fato underground ou mainstream? Ou melhor, quando um artista deixa de ser underground e passa ser mainstream?
Será o aumento de exposição ou de atenção da mídia? Ou serão mudanças particulares de estilo?
Ser underground é um estado de mente, um conjunto de critérios, de convicções, ou ainda, uma concepção ou a falta dela por parte dos fãs?
Se um notório artista underground cultuado por um seleto grupo de “cabeçudos” tivesse de repente suas músicas tocadas repetidas vezes por dia no rádio, aparecesse na MTV e com isso angariasse uma legião enorme de fãs, ele deixaria de ser underground?
Por outro lado, ser marginalizado, não receber atenção da mídia, não receber polpudos cachês e ou ser um artista pobre, necessariamente o torna underground?
Analisando essas perguntas, chega-se a conclusão de que as respostas para todas elas se perdem no mais profundo e obscuro relativismo. Porém, o que se pode perceber com clareza, é o fato que, para seus militantes, o Underground foi, é e continuará sendo um pequeno e exclusivo clube e, assim que ele fica “grande demais”, eles passam para outra coisa, enquanto fazem questão de mostrar o mais aberto desdenho pelas mesmas coisas que um dia aclamaram.
Será isso perspicácia e conhecimento “verdadeiro” de causa; ou uma espécie de elitismo?
Ou pior, seria isso pura hipocrisia? Se a esses que se denominam underground fosse dada a chance de terem seus trabalhos executados freqüentemente pelas rádios e canais do gênero, expondo-os assim a uma vasta audiência, elevando seu valor na indústria e conseqüentemente seu cachê; será que eles pensariam duas vezes antes de aceitar?
Algo que pode valer a pena refletir da próxima vez que você estiver na iminência de desqualificar seu último artista preferido, só por que um grupo de caras cheios de piercings, querendo parecer inusitados, estiverem acusando-o de ter se vendido e virado “chacoteiro”.

terça-feira, novembro 28, 2006

Chuta que é macumba Parte II

obs: Antes, se ainda não leu, leia a primeira parte que se encontra abaixo em uma postagem anterior.


Já era por volta de cinco e meia da tarde do dia seguinte quando comecei a perceber onde amarrara meu burro. Depois de soltar em uma área remota da cidade, de um ônibus onde dentro só restavam o motorista e o cobrador, segui as instruções precisas dadas pelo meu guru flanelinha. Após dobrar por algumas ruelas, me deparei com um muro de tijolos no qual se destacavam ao centro uma pequena porta de madeira onde se via um palmo por cima e um palmo por baixo e uma vara alta fixada no canto esquerdo sustentando um pano branco. A atmosfera estática e o intenso cheiro de vela eram um forte indício de que ali as pessoas se envolviam com assuntos do misterioso. Parecia o lugar que me fora indicado. Quando ensaiava uma esgueirada pela parte de cima da porta de madeira presa com tiras de pneu, fui surpreendido por aquela já conhecida testa breada, seguida por dois olhos amarelados emergindo de supetão por detrás da porta preenchendo a fresta com um olhar sinistro e dizendo:
- Fala sócio, chegou na hora. Já são quase seis. É na hora alta que o bicho pega.
Com as suspeitas de que eu havia me metido onde não devia crescendo a passos largos, preferi nem tentar assimilar o que significava “o bicho pegar na hora alta”, e até então acreditando que o meu anfitrião era o dono do pedaço, me embuti de uma fragílima confiança e segui terreiro adentro. Ao ingressar no fronte de batalha, cumprimentei devidamente meu interlocutor que foi me conduzindo por um estreito corredor entre o muro e uma casa de reboco até um salão nos fundos. O salão todo iluminado por velas, era rodeado por estátuas em tamanho real de diversas entidades todas lado a lado formando um círculo. Ainda admirava atônito aquelas imagens místicas, grandes e coloridas, quando fui interrompido por um cutucão na costela:
- Ta vendo ali no fundo. – sussurrou o reparador de carros.
Levantei os olhos e vi um sujeito moreno, careca, com olhos esbugalhados, meio embaçados e amarelados, enrolando um pano na cabeça. Assim que bati com olhos nele, ele na mesma hora, de soslaio, olhou para mim. Tirei os olhos dele rapidamente tentando disfarçar e perguntei quem era.
- Aquele é o homem que comanda a sessão. – respondeu o flanelinha macumbeiro em tom sombrio.
- E tu? – eu perguntei surpreso. – pensei que tu eras o pai-de-santo!
E nada podia ter me preparado para a revelação que viria a seguir.
- Não, não – respondeu o elemento. – ele é meu chegado. Eu conheci ele um tempo atrás quando ele mandava umas melas lá no setor. De vez em quando eu fazia uns avío pra ele.
Puta que pariu! Meu castelo de cartas ruíra. Não só o meu guia espiritual e maior aliado era uma fraude, como o suposto verdadeiro pai-de-santo ao qual eu estava prestes a confiar minha alma, era um traficante aposentado que encontrara na confecção de despachos uma nova atividade para ocupar seu tempo livre. Era muita sacanagem.
Rapidamente, fitei o recinto analisando uma possível tentativa de fuga, mas já estava num ponto sem retorno, havia senhoras largas rezando por todos os lados. Quando virei para o outro lado uma delas falou:
- Vem cá zinfio.
E antes que eu pudesse dizer não vou, baforou um charuto na minha cara. No espanto, inalei profundamente aquela fumaça, o que desencadeou em mim uma instantânea e aguda crise de rinite me fazendo espirrar freneticamente. Meio atordoado tentei me afastar, quando entre um espirro e outro ouvi alguém gritando:
- Segura que baixou nele!
Por um segundo, em meio aos espirros, eu ainda tentei explicar os sintomas da moléstia que me combalia, mas fui interrompido por uma mão pesada que me atingiu a cabeça e de novo gritaram:
- Seguuura ele!
E uma segunda mão veio em minha direção. Foi aí que o mugunzá azedou de vez. Tentei uma esquiva mal executada para a esquerda que me levou direto ao encontro de um índio robusto que tombou batendo numa outra estátua que estava ao lado e assim sucessivamente. O famoso efeito dominó. Instantaneamente se fez silêncio e todos observaram incrédulos e paralisados, numa fração de segundos, estátua por estátua cair ao chão. Ainda procurei um rosto familiar, mas a essa altura já não havia mais nem sinal do avião de pai-de-santo que me levara lá.
É agora, eu pensei, é agora que o bicho vai pegar na hora alta! E numa atitude que foi decidida na minha medula espinhal, saltei as duas senhoras atarracadas que estavam atrás de mim, varei pelo corredor derrubando uns dois vasos de Espadas de São Jorge, driblei dois elementos que vinham para ver o acontecido e saí correndo pelas ruas. É claro que o terreiro inteiro veio também, me perseguindo e gritando em coro palavras de ódio numa clássica cena medieval. Quando já fraquejava e começava a aceitar a idéia de perder a vida ali naquele subúrbio longínquo da metrópole, consegui chegar ao asfalto onde milagrosamente apareceu um táxi no qual eu me atirei dentro escapando por um triz da populaça sedenta pelo meu couro. Imediatamente agradeci São Jorge pelo táxi em hora tão providencial, mas, apesar de ter salvado minha vida, me custou trinta reais, feitos sem nenhum desconto em vista da minha urgente demanda pelo serviço, aguçando ainda mais a profunda pindaíba que me assolava. Por fim, durante o longo momento de silêncio voltando para casa ao lado do taxista, e já bem distante do perigo de morte iminente, consegui voltar a pensar em algo que não fosse salvar minha vida e concluí que mais uma vez o inimigo triunfara. Dessa vez mostrando toda sua supremacia. Relutei mas tive que admitir derrota, fui obrigado a rever minha abordagem e a reconsiderar minhas táticas. Foi aí então, na dor da derrota, num momento de estranha clareza, que decidi tomar uma medida drástica contra a dureza perene: arrumar um emprego.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Fragmentos poéticos

I

Filosofo em arsênico, carbono e anti-matéria
Amorteço em dormências de palavra, sentido e ser
Cuspo no copo gozo de carência em Dó maior
Nervo que pulsa morte e desejo
Fome de cor ambígüa
Ânsia matinal vertida em sonhos exeqüiveis
Úmidos de preguiça, fumaça e som

quinta-feira, outubro 05, 2006

Chuta que é macumba parte I

Quando chegam juntos ao escaninho, a fatura estourada do cartão de crédito, a fatura atrasada do crediário e uma carta do serviço de proteção ao crédito, o popular S.P.C, avisando de forma tão carinhosa que você foi incluído no cadastro, que você por um instante chega até a pensar que é alguma coisa boa, e o salário do mês já acabou de acabar; só pode haver uma explicação: existem forças obscuras agindo ardilosamente atrás da cortina da vida, é feitiço, trabalho, obra do maligno. Só pode ser!
Decidido a acabar de vez com essa onda de urucubaca, fui ter com um macumbeiro amigo meu que nas horas vagas faz bico de reparador de carros aqui perto. Ao me aproximar do indivíduo, notei pelo franzir involuntário daquela testa breada e marcada pelas vicissitudes da labuta, que ao bater com os olhos em mim, mesmo ainda à distância, o pai-de-santo flanelinha logo pressentiu o campo energético carregado que me circundava e de certo já sabia do que se tratava, pois era homem de intensa força psíquica e grande poder sensitivo. Quando finalmente cheguei perto, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa ele me interpelou:
-É dinheiro! – exclamou o vidente com a flanela em punho.
Caramba, eu pensei entusiasmado, não é que o cara é bom mesmo rapá.
-Como tu sabes? – perguntei.
-Porque acabei de ver. É dinheiro o que acabou de cair do teu bolso, não é?
Puta que pariu! E não é que era mesmo. Só deu tempo de eu mirar de longe meus últimos cinco contos guardados com todo esmero sendo levados pelo vento rodopiando no asfalto e parando debaixo de um sapato e depois sendo disfarçadamente transferido para dentro do bolso de um colegial que passava na direção oposta. Tentei ainda gritar, mas já era tarde. O adolescente inebriado de hormônios, com pústulas na face e sovaco encharcado pela sudorese característica da espécie, correu e entrou num ônibus que foi arrancando tão devagar que só podia ser provocação.
Não havia mais dúvidas, estava claro como o sol de duas da tarde acima de mim a me açoitar na fronte fazendo latejar um protuberante vaso sanguíneo; aquilo era um evidente ato de retaliação por parte das forças soturnas por eu ter ido me apadrinhar ao místico reparador de carros. Um aviso de que o inimigo estava atento e à espreita, dispunha de grande aparato de inteligência e estava sempre um passo a frente. De imediato uma pontada percorreu-me a testa passando por toda parte superior da têmpora esquerda e instalando-se na base do crânio. Confesso que por alguns instantes fui acometido de certo pessimismo. Contudo não sucumbi, reuni o pouco de saliva que me restava na boca, engoli um tylenol emergencial que estava no bolso, evoquei São Jorge, clamei pelo espírito-santo, fiz o sinal da cruz três vezes e permaneci resoluto em campanha para derrotar o mal perpetuador da pindaíba crônica.

terça-feira, setembro 19, 2006

Depressão é pop

Nada mais "in" hoje em dia do que estar deprimido. De uma maneira digamos assim, quase que dialética, estar acometido dessa epidemia contemporânea que outrora levaria almas desesperadas aos confins da inadequação, isolamento e solidão, hoje permite pelo menos a inclusão do pobre infeliz desenganado num amplo círculo social.
Outro dia estava numa festa e alguém perguntou em bom paraense, referindo-se à uma pessoa cujo nome era Rodrigo:

- O Rô, tu viu?

De repente uma mais afoita e ansiosa por uma conversa que sentava ao lado pulou de supetão e disparou:

- O que? Rivotril? Também tomo. Uma maravilha menina!

- Não, não tava perguntando do Ro...

- Que Rivotril que nada! -Outra voz já mais bêbada e cheia de propriedade irrompeu na conversa.

- Rivotril é uma merda. Bacana é a fluoxetina, essa sim é campeã.

- Nada disso rapá! Fluoxetina é pra depressãozinha; coisa do passado.

Retrucou outro em tom intelectual e querendo mostrar que também entendia do assunto completou:

- A tendência agora são os “dual-action” e tricíclicos...

Diante dos meus olhos, uma acalorada discussão farmacológica com nuances de existencialismo e dinâmica futebolística se agitava. Tomado por uma estranha angústia, eu comecei a me perguntar de onde haviam saído todos aqueles deprimidos serelepes, eloqüentes e bem informados. O que havia acontecido com os solitários, poetas, bêbados de balcão solenemente deprimidos em silêncio ou suicidas heroicamente decididos em seus apartamentos? Custei um pouco a acreditar, mas era tragicamente claro: a praga pop havia conseguido solapar mais um ícone da minha geração. Sorrateiramente, tinha tomado de assalto esse derradeiro refúgio dos inseguros, ansiosos e anônimos; talvez nosso último incólume lastro de identidade; e eu testemunhava tudo atônito. De forma cruelmente irônica, pela primeira vez haviam conseguido acabar com a minha depressão, e eu ficara profundamente deprimido por isso. O chão se abriu debaixo dos meus pés, nunca havia me sentido tão perdido. Era o fim. Fui pra casa e continuo profundamente abatido. Já a dita que queria saber do tal Rodrigo, bem, essa acabou meio deslocada, sem graça e se retirou com a sensação de que estava de fora de algo muito importante. Provavelmente a essa hora, já deve estar também na farmácia mais próxima, ansiosa, comprando alguma das últimas tendências no mercado para não ficar de fora na próxima.

Quem sou eu

Belém, Pará, Brazil
O homem que diz "dou" Não dá! Porque quem dá mesmo Não diz! O homem que diz "vou" Não vai! Porque quando foi Já não quis! O homem que diz "sou" Não é! Porque quem é mesmo "é" Não sou!