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Contos Parte I

A tosse havia voltado, mas não com a mesma força como nas outras noites. Os olhos meio pregados devido à coriza noturna se esforçavam entreabertos tentando distinguir o distorcido vermelho do relógio-alarme que marcava alguma hora da madrugada. O peito ardia sem parar em razão da bronquite crônica que o acompanhava desde a infância. Um gosto amargo de bile vinha à sua boca e ele o empurrava novamente garganta abaixo com a saliva ácida. Já havia horas que estava daquele jeito, virando de um lado para o outro, com se em algum momento fosse conseguir dormir profundamente e esquecer daquilo tudo por mais algum tempo. Porém uma espécie de febre lhe ardia, e mesmo que não estivesse dormindo de fato, permanecia num estado sonâmbulo, delirante, sem ter controle sobre os pensamentos que lhe afloravam a mente. E os sonhos? Seriam eles de fato sonhos? Há um mês que todas as noites ele sonhava com a mesma coisa. De manhã nunca lembrava por inteiro, sempre alguma parte diferente, porém sabia que …

Underground vs. Mainstream

A lendária guerra entre “mainstream” e “underground” tem suas raízes fincadas na cultura pop do mundo ocidental moderno, e tem encontrado solo particularmente fértil na cultura musical contemporânea. Os dois lados antagonistas têm travado uma batalha épica, onde qualquer coisa que um “undergrounder” (termo usado para descrever um suposto adepto de tal vertente) considere comercial, corporativo ou massificado, se torna “mainstream” e onde tudo que um “mainstreamer” (alcunha que designa o sujeito do lado oposto) acredite ser esquisito, extremo ou pesado se torna “underground”.
Tomando o termo “underground” como ponto de partida, percebe-se que o mesmo vem envolto em uma série de suposições, as quais se aplicam o contrário ao lado antagonista.
A primeira, é que os artistas que habitam e sobrevivem nessa realidade conspicuamente soturna, são a suprema personificação da essência de seus estilos musicais e conseqüentemente o que eles deveriam ser. A segunda é que eles têm amor pela cultura. O…

Fragmentos poéticos

I

Filosofo em arsênico, carbono e anti-matéria
Amorteço em dormências de palavra, sentido e ser
Cuspo no copo gozo de carência em Dó maior
Nervo que pulsa morte e desejo
Fome de cor ambígua Ânsia matinal vertida em sonhos exequíveis Úmidos de preguiça, fumaça e som

Chuta que é macumba parte I

Quando chegam juntos ao escaninho, a fatura estourada do cartão de crédito, a fatura atrasada do crediário e uma carta do serviço de proteção ao crédito, o popular S.P.C, avisando de forma tão carinhosa que você foi incluído no cadastro, que você por um instante chega até a pensar que é alguma coisa boa, e o salário do mês já acabou de acabar; só pode haver uma explicação: existem forças obscuras agindo ardilosamente atrás da cortina da vida, é feitiço, trabalho, obra do maligno. Só pode ser! Decidido a acabar de vez com essa onda de urucubaca, fui ter com um macumbeiro amigo meu que nas horas vagas faz bico de reparador de carros aqui perto. Ao me aproximar do indivíduo, notei pelo franzir involuntário daquela testa breada e marcada pelas vicissitudes da labuta, que ao bater com os olhos em mim, mesmo ainda à distância, o pai-de-santo flanelinha logo pressentiu o campo energético carregado que me circundava e de certo já sabia do que se tratava, pois era homem de intensa força psíquic…

Depressão é pop

Nada mais "in" hoje em dia do que estar deprimido. De uma maneira digamos assim, quase que dialética, estar acometido dessa epidemia contemporânea que outrora levaria almas desesperadas aos confins da inadequação, isolamento e solidão, hoje permite pelo menos a inclusão do pobre infeliz desenganado num amplo círculo social.
Outro dia estava numa festa e alguém perguntou em bom paraense, referindo-se à uma pessoa cujo nome era Rodrigo:

- O Rô, tu viu?

De repente uma mais afoita e ansiosa por uma conversa que sentava ao lado pulou de supetão e disparou:

- O que? Rivotril? Também tomo. Uma maravilha menina!

- Não, não tava perguntando do Ro...

- Que Rivotril que nada! -Outra voz já mais bêbada e cheia de propriedade irrompeu na conversa.

- Rivotril é uma merda. Bacana é a fluoxetina, essa sim é campeã.

- Nada disso rapá! Fluoxetina é pra depressãozinha; coisa do passado.

Retrucou outro em tom intelectual e querendo mostrar que também entendia do assunto completou:

- A tendência agora são…